
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, que influencia a circulação atmosférica e pode alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta. Na Amazônia, seus efeitos podem variar de acordo com a região e a influência de outros fatores climáticos.
Os dados são apresentados na forma de anomalias, ou seja, diferenças entre os valores observados e a média histórica usada como referência. Essa comparação permite identificar períodos mais quentes ou frios, mais secos ou chuvosos do que o padrão esperado para cada localidade monitorada. Os registros no boletim mostram variações mensais nas anomalias climáticas em cada região monitorada desde janeiro de 2026 e as diferenças entre essas regiões.
“Os dados representam quatro de nossas torres, três em florestas naturais e uma em área desmatada. O LBA tem registro histórico e contínuo de dados do clima nesses locais. Indicando, nesse período analisado, um desvio do normal, uma queda da precipitação em relação à média e também na umidade do ar”, explica o pesquisador e gerente científico do LBA, Bruce Forsberg.
No Amazonas, os dados da Torre K34, com 54 metros de altura, instalada no sítio experimental ZF2, indicam temperaturas acima da média histórica entre março e setembro de 2026. Em julho, a diferença chegou a 5,3 °C.
Em agosto e setembro, a combinação de temperaturas elevadas e pouca chuva foi acompanhada por uma redução da umidade relativa do ar, que ficou quase 10% abaixo do padrão histórico em setembro.
Na Floresta Nacional de Caxiuanã (Flona Caxiuanã), no Pará, os dados da torre de 52 metros de altura mostram um comportamento diferente daquele observado no Amazonas. Houve déficit de precipitação, principalmente em março e agosto, mas as temperaturas ficaram abaixo da média histórica em boa parte do período analisado. Em setembro, o valor chegou a 0,6 °C abaixo do padrão histórico. A umidade relativa do ar permaneceu elevada, segundo os dados apresentados no informativo.
Esta condição contribui para temperaturas mais baixas. “Sabemos que até um certo limite, a floresta da FLONA consegue manter altas taxas de transpiração, utilizando os sistemas de raízes profundas que possuem capacidade de acessar água contida nos lençois freáticos, o que explica os valores de umidade e evita os picos de temperatura durante secas severas e eventos como o El Niño. O monitoramento contínuo nos permite entender melhor esses limites”, destaca o gerente de dados do LBA e responsável pelo informativo, Paulo Teixeira.
Em Rondônia, o monitoramento abrange dois ambientes com características diferentes de cobertura vegetal e uso do solo: uma área de floresta preservada na Reserva Biológica do Jaru (Rebio Jaru) e uma área de pastagem destinada à pecuária, na Fazenda Nossa Senhora, no município de Ouro Preto do Oeste. Os dois locais estão situados no chamado Arco do Desmatamento.
Na Rebio Jaru, localizada a cerca de 130 quilômetros de Ji-Paraná, os dados indicam redução da precipitação, inclusive durante meses do período chuvoso, como fevereiro e março. As temperaturas também ficaram acima da média em determinados períodos. Em agosto, o registro chegou a 4,3 °C acima do padrão histórico.
Na Fazenda Nossa Senhora, onde predomina a pastagem, os registros mostram oscilações de temperatura ao longo do ano. No início do ano, foram registrados meses mais quentes; em maio, a temperatura ficou 2,6 °C abaixo da média. Essa redução foi associada à ocorrência de friagens. A comparação entre os dois locais permite observar as condições meteorológicas em ambientes com características distintas de cobertura vegetal e uso do solo.
A Flona de Caxiuanã e a Rebio Jaru são unidades de conservação de categorias distintas. A Flona é uso sustentável (conservação da natureza e uso sustentável dos recursos naturais) e a Rebio Jaru de proteção integral (objetivo proteger a natureza e permitido uso indireto dos recursos naturais). Ambas são gerenciadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
“Na presença de eventos extremos, como o El Niño atual, a falta de chuva e o calor excessivo tendem a exigir que a vegetação utilize mecanismos naturais de proteção. Por exemplo, o fechamento dos estômatos, que funcionam como poros que controlam a saída de vapor de água e a entrada de gases como CO2. Nas florestas intactas, as árvores ainda transpiram e tentam resfriar o ambiente, mas em áreas que ocorreu a troca por pastagem, esse mecanismo de ‘ar-condicionado’ natural deixa de existir, deixando a região vulnerável a extremos climáticos”, explica Teixeira.
Monitoramento contribui para compreender variações ambientais
A comparação entre esses dados ajuda a acompanhar as condições ambientais durante o El Niño e investigar como diferentes áreas da Amazônia respondem às variações meteorológicas.
“Os dados coletados pela Rede de Torres do LBA, apresentados no primeiro informe, em condições como as apresentadas em um El Niño classificado como de intensidade excepcional, nos permitem quantificar como ambientes equivalentes a florestas intactas (caso da K34, REBIO e Caxiuanã) e áreas que sofreram mudanças de uso do solo, como na Fazenda Nossa Senhora em Rondônia, devem responder ao aumento dos eventos climáticos extremos em escalas regionais e globais”, ressalta Teixeira.
O monitoramento contínuo também permite identificar desvios em relação às médias históricas e acompanhar sua evolução ao longo do tempo. A interpretação dos resultados deve considerar as características de cada local e outros fatores que influenciam as condições meteorológicas.
“Nossas torres fornecem dados históricos para interpretar e entender as variações climáticas associadas ao El Niño em diferentes partes da Amazônia e como esses efeitos têm mudado ao longo dos anos. O El Niño é um fenômeno cíclico que está ficando mais forte com o avanço da mudança climática global. O monitoramento ambiental será essencial para acompanhar essas mudanças e desenvolver estratégias para minimizar seus impactos na região”, destaca Forsberg.
A Rede de Torres do LBA reúne torres instaladas nos estados do Amazonas, Pará, Rondônia e Mato Grosso. As estruturas monitoram continuamente as interações entre a vegetação e a atmosfera, além de contribuir para o estudo das relações entre as condições ambientais e os diferentes tipos de uso do solo.
O informativo, atualizado quinzenalmente, está disponível para consulta e download em: https://programalba.cloud/infolba
Texto: Josiane Santos - LBA/Inpa